Suricate

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

O lado lunar













“We weren’t ourselves when we fell in love, and when we became ourselves – surprise! – we were poison. We complete each other in the nastiest, ugliest possible way.” 

O ser humano em geral (nas exceções encontram-se aqueles que só são felizes se não souberem como vai ser o amanhã) gosta de saber o terreno que pisa, tanto no plano de vida que traça para si, como nas relações que estabelece. Nada nos oferece mais segurança do que a tão em voga nos dias de hoje estabilidade, ou falta dela. Nada nos tranquiliza mais do que sabermos que temos um emprego certo, uma casa para onde voltar ao fim do dia, dois braços à nossa espera como diz o fado, nada nos dá mais confiança do que aquele núcleo de amigos que está sempre lá para nós nas melhores e nas piores horas.
Numa relação a dois o passar do tempo meses, alguns anos, muitos anos, faz-nos baixar a guarda, tomar o dado por adquirido, muitas vezes dando lugar ao comodismo, à rotina. De repente damos por nós a achar que conseguimos entrar em casa às escuras e saber exatamente onde estão todos os móveis, com a mesma facilidade com que pensamos que de olhos fechados conseguimos tatear o corpo do nosso parceiro/a reconhecendo-lhe cada concavo e cada convexo e por isso achar que o conhecemos como a palma das nossas mãos, mas será isso verdade? Será que quando olhamos dentro dos olhos do nosso companheiro/a lhe vemos o âmago, o centro de si mesmo, a sua essência? Ou será que só vemos aquilo que ele/a permite que seja visto? Ou será ainda que há uma parte de nós, que nós próprios desconhecemos existir? Sempre ouvi dizer que todos nós temos um lado lunar, todos nós humanos, por muito boas pessoas que possamos parecer, todos temos um lado negro, aquele que só num determinado dia, momento, hora se revela e acontece perante os nossos incrédulos olhos surgindo-nos, como uma onda que rebenta contra a rocha, a pergunta:
 "Como é que ele/ ela foi capaz de uma coisa destas?!?!"

Até que ponto conhecemos o nosso parceiro, a companheira que escolhemos para com ela dividir a vida, partilhar o nosso dia-a-dia? Até que ponto nos conhecemos a nós próprios? Até onde somos capazes de prever os nossos comportamentos e exatamente quando é que começamos a agir da forma nunca antes antecipada, nem por nós próprios? Onde está o momento dessa mudança, será que nos apercebemos dele?

Além disso o ser humano está em permanente mudança (evolução ou regressão), o que significa que a pessoa com quem casamos, não é aquela com quem vivemos 5, 10, 20 anos mais tarde, ela/e está diferente, mas nós também. Não será por isso nunca possível dizermos que conhecemos alguém, nunca por inteiro.











Com mil perguntas e nenhuma resposta é exatamente assim que saímos da sala de cinema no fim do filme Gone Girl. É daqueles raros filmes em que a vontade de voltar a entrar na sala para voltar a ver tudo outra vez nos assalta, porque ficou uma dúvida aqui e ali, porque preciso de ver esta e aquela cena outra vez melhor e é por estas e outras que este é daqueles que vou querer ter na prateleira para digerir, mastigar e degustar devagarinho.
No meu caso entrei feita dama de unhas bem feitas e saí sem pinta de verniz, porque o sistema nervoso mo fez arranca-lo à dentada....

As reverbações do filme ainda ecoavam dentro de mim no dia seguinte quando lhe levei o café da manhã à cama, após alguns minutos de silêncio:

"Vais falar, ou vou ter de te abrir o crânio para perceber em que pensas?!
"No meio de risos tranquilizei-o "Quanto a mim estou descansada, não corro perigos, não és tu que me andas sempre a dizer que sabes a forma como penso, que conheces a minha maneira de pensar? Que me conheces muito melhor do que eu própria imagino?!
Hummm...será que sim? Será que não?!"

 

Vernáculo ( Para um homem comum)


Estou cansado, pá
Cansado e parado por dentro
Sem vontade de escolher um rumo
Sem vontade de fugir
Sem vontade de ficar
Parei por dentro de mim
Olho à volta e desconheço o sítio
As pessoas, a fala, os movimentos
A tristeza perfilada por horários
Este odor miserável que nos envolve
Como se nada acontecesse
E tudo corresse nos eixos.
Estou cansado destes filhos da puta que vejo passar
Idiotas convencidos
Que um dia um voto lançou pela TV
E se acham a desempenhar uma tarefa magnífica.
Com requinte de filhos da puta
Sabem justificar a corrupção
O deserto das ideias
Os projectos avulso para coisa nenhuma
A sua gentil reforma e as regalias
Esses idiotas que se sentam frente-a-frente no ecrã
À hora do jantar para vomitar
O escabeche de um bolo de palavras sem sentido
Filhos da puta porque se eternizam
Se levam a sério
E nos esmigalham o crânio com as suas banalidades:
O sôtor, vai-me desculpar
O que eu quero é mandá-los cagar
Para um campo de refugiados qualquer
Vê-los de Marlboro entre os dedos a passear o esqueleto
Entre os esqueletos
Naquela mistura de cheiros e cólicas que sufoca
Apenas e só -- sufoca.

Estou cansado
Cansado da rotina
Desta mentira que é a vida
Servida respeitosamente
Com ferrete
Obediente
Obediente.

Estou cansado de viver neste mesmo pequeno país que devoram
Escudados pelas desculpas mais miseráveis
Este charco bafiento onde eles pastam
Gordos que engordam
Ricos que amealham sem parar
Idiotas que gritam
Paneleiros que se agitam de dedo no ar
Filhos da puta a dar a dar
Enquanto dá a teta da vaca do Estado
Nada sabem de história
Nada sabem porque nada lêem além
Da primeira página da Bola
O Notícias a correr
E o Expresso, porque sim!
Nada sabem das ideias do homem
Da democracia
Atenas e Roma
Os Tribunos e as portas abertas
E a ética e o diálogo que inventaram o governo do povo pelo povo
Apenas guardam o circo e amansam as feras
Dão de comer à família até à diarreia
Aceitam a absolvição
E lavam as manápulas na água benta da convivência sã
Desde que todos se sustentem na sustentação do sistema
Contratualizem (oh neologismo) o gado miúdo
Enfatizem o discurso da culpa alheia
Pela esquizofrenia politicamente correcta:
Quando gritam, até parece que se levam a sério
Mas ao fundo, na sacristia de São Bento
O guião escrito é seguido pelas sombras vigentes.

Estou cansado
Cansado da rotina
Desta mentira que é a vida
Servida respeitosamente
Com ferrete
Obediente
Obediente.

Estou farto de abrir a porta de casa e nada estoirar como na televisão
Não era lá longe, era aqui mesmo
Barricadas, armas, pedradas, convulsão
Nada, não há nada
Os borregos, as ovelhas e os cabrões seguem no carreiro
Cmo se nada lhes tocasse -- e não toca
A não ser quando o cinto aperta
Mas em vez da guerra
Fazem contas para manter a fachada:
Ah carneirada, vossos mandantes conhecem-vos pela coragem e pela devoção na gritaria do futebol a três cores
Pelas vitórias morais de quem voa baixinho
E assume discursos inflamados sem tutano.

Estou cansado
Cansado da rotina
Desta mentira que é a vida
Servida respeitosamente
Com ferrete
Obediente
Obediente.

Estou cansado, pá
Sem arte, sem génio, cansado:
Aqui presente está a ementa e o somatório erróneo do desempenho de uma nação
Um abismo prometido
Camuflado por discursos panfletários:
Morte aos velhos!
Morte aos fracos!
Morte a quem exija decência na causa pública!
Morte a quem lhes chama filhos da puta!
- E essa mãe já morreu de sífilis à porta de um hospital.
Mataram os sonhos
Prenderam o luxo das ideias livres
Empanturraram a juventude de teclados para a felicidade
E as famílias de consumo & consumo
Até ao prometido AVC
Que resolve todas as prestações:
Quem casa com um banco vive divinamente feliz
E tem assistência no divórcio a uma taxa moderada pela putibor.
Estou cansado, pá
Da surdez e da surdina
Desta alegria por porra nenhuma
Medida pelo sorriso de vitória do idiota do lado
Quando te entala na fila e passa à frente
É a glória única de muita gente
Uma vida inteira...

Eleitos, cuidem da oratória...

(António Manuel Ribeiro)

* Baseado no poema "Vernáculo" do livro "O Momento a Seguir", edição Sete Caminhos (2006) -- contém expressões do português vernáculo.

Tema incluído no álbum "A Minha Geração" (2013) - editado em 24/06/2013.

 

domingo, 19 de Outubro de 2014

Gone Girl

"Boa tarde"
"------------"
"Queria 2 bilhetes para o Gone Girl às nove."
"Não temos cá nenhum filme com esse nome."
"Como?! Desculpe, dois bilhetes, Gone Girl, nove horas."
"Não será em parte incerta?"
"Ó minha senhora o filme não está em parte incerta, está neste cinema tenho a certeza absoluta!"
"Não será em parte incerta?"
"Mauuuuuuuu! Já lhe disse que o filme está aqui!"
------
Pega numa capa atira-a à minha frente, abre-a, desfolha umas folhas manhosas e sujas e lá aparece a imagem do Gone Girl...só que em português (juro que nunca tinha prestado atenção ao nome do filme em português, normalmente nunca sei o nome a não ser em inglês!)
Aponta-me para a tradução do título como se eu fosse a iletrada...
"É este?" com uma inflexão que me enojou de imediato.
Por baixo da imagem estava o título em inglês e eu sublinhando as letras do título em inglês com a ponta do dedo e acompanhando-o com as palavras e os meus olhos nos dela...

" Go ne G i r l , do is bi lhe tes, no ve ho ras !"

Lá consegui comprar os dois bilhetes, mas não foi fácil, durante alguns segundos andaram por ali perdidos ...em parte incerta!!! 
(odeio pessoas que sendo estúpidas e burras me fazem pensar que a estúpida e burra sou eu!)




















(quanto ao filme e ao que eu achei, falamos mais tarde:)

sábado, 18 de Outubro de 2014

Corram está quase a acabar!

Já foram ver o sorteio da Rosinha? Os trabalhos que ela faz? Então estão à espera de quê?! Quem me dera ter dez por cento da magia que ela tem nas mãos...e na vida, é preciso ser alguém muito especial para mesmo no meio de muitas e sérias adversidades não perder a capacidade de sorrir e a Rosinha é assim. A possibilidade de participarem no sorteio está quase a acabar dêem lá um pulinho, tenho a certeza que vão encontrar peças de que vão gostar!







sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Vitaminas para a boa disposição















"Olá, Suri!"
"Olá, como vais?"
"Eu bem, mas tu vais bem melhor!"
"Como?"
"Andas a fazer alguma coisa?"
"Como assim?"
"Ao cabelo, ao resto, alimentação, ginástica, sei lá ainda ontem te vi passar e já era para te ter dito..."
"Ter dito o quê, não, não fiz, nem tenho tempo para nada além do trabalho..."
"Ó pá, tu desculpa o abuso, mas estás bem, queres que te diga, estás melhor agora do que há 17 anos quando te conheci!"
"Oh, não sejas tonto, que disparate, estou, estou, estou 17 anos mais velha, olha tenho de ir..."
"Desculpa, mas é verdade, olha para o que te digo!"
"Obrigada, fica bem!"
.... .... .... ....

Eu desculpo, eu desculpo, eu desculpo e agradeço, há lá melhor incentivo a dar a uma mulher a uma sexta logo de manhã? É claro que o cumprimento veio de um colega de trabalho, sim porque de mulheres? Essas nascem mudas e morrem caladas!

A Manter Debaixo de Olho Deles

CLAIRE FORLANI
















Qual é a média de idade dos senhores juízes?!

É por causa destas e d'outras que estou convencida que muitos dos problemas da nossa sociedade advêm da falta de sexo da  falta de peso!

Respondendo à minha pergunta, está tudo para lá dos 50, não?!...Bem me parecia!
E depois admiram-se que eu tenha um medo que me pelo de médicos....pudera!